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22 novembro 2010

A primeira vez

tumblr_lb69rgNrbk1qckzpmo1_500_largeVocê sempre me disse que sua maior mágoa, era eu nunca ter escrito um texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer coisa. Você sempre foi o único homem que me amou. E eu nunca te escrevi nem uma frase num papelzinho amassado. Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu também, o porque de eu dormir chorando, porque era impossível abraçar sequer alguém, o que dirá o mundo. Outro dia eu encontrei um diário meu, de 99, e lá estava escrito “hoje eu larguei meu namorado sentado, e dancei com ele no baile de formatura”. Ele, no caso, é você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo escrito nenhum texto para você, por diversas vezes larguei vários namorados meus, sentados, e dancei com você. Porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado. Depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos escuros espelhados de maconheiro. E eu de calça colorida daquelas “bailarina”. E nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha da classe. Mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso super sexy. E eu me achei ridícula na foto, mas senti uma coisa linda por dentro do peito.

Aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha da classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões (uns babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um beijo. Fingindo que ia desmaiar. Foi ridículo. Mas foi menos ridículo do que aquela vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei a força. Você saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo. Eu não sei porque exatamente você não mereceu um texto meu, quando me deu meu primeiro cd do Vinícius de Morais. Ou quando me deu aquele com historinhas de crianças para eu dormir feliz. Ou mesmo quando, já de saco cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu aquele cartão postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça. Também não sei porque eu não escrevi um texto quando você apareceu naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida “eu sei que você não gosta de mim, mas deixa eu te olhar mesmo assim”.

Talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente “me faz companhia enquanto meu namorado está viajando?”. E você fez. E você me olhava de canto de olho, se perguntando porque raios isso acontecia com você. Talvez porque mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava querendo apenas me olhar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo. Depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de gostar de mim. E eu podia ter escrito um texto para você. Claro que eu senti ciúmes e senti uma falta absurda de você. Mas ainda assim, eu deixei passar em branco. Nenhuma linha sequer sobre isso. Depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou até desopilar todos os cantos do seu fígado. Eu fiquei numa tristeza sem fim. Depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. E fiquei feliz. Pode me xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta um pouquinho de mim.

Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Strokes no carro ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. Tudo é você. Quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. E, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você. Até hoje. Até essa manhã. Em que você, pela primeira vez, foi embora sem sentir nenhuma pena nisso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente foi embora. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida, e que você é cheio dessas coisas. E que você usa para não sentir dor ou saudade. Foi a primeira vez que você me deixou te olhar, mesmo você não gostando de mim.

E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu.

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22 novembro 2010

A primeira vez

Você sempre me disse que sua maior mágoa, era eu nunca ter escrito um texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer cois...
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04 novembro 2010

Olhe para o céu

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Você mal sabe da minha existência, e eu vivo pela sua. Me mantém por perto, e nem percebe isso. Não chega a ser o vilão da história, mas faz sempre a mocinha sofrer. Caso você não saiba, histórias de amor não são assim. Você tem ela, e eu não tenho você. Quando a beija, posso sentir seus lábios sobre os meus. Juro, às vezes consigo sentir seu gosto. É bom, mas não o bastante. Quando eu olho no seus olhos, você me faz invisível. Talvez tenha algum tipo de super poder, ou seja só desatento mesmo. Eu sou sua estrela, e você nunca olha para o céu.

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04 novembro 2010

Olhe para o céu

Você mal sabe da minha existência, e eu vivo pela sua. Me mantém por perto, e nem percebe isso. Não chega a ser o vilão da história, mas faz...
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17 agosto 2010

O que eu te escrevi

O que eu te escrevi
Olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê

Sei, que a tua solidão me dói
E que é difícil ser feliz
Mais do que somos todos nós
Você supõe o céu
Sei, que o vento que entortou a flor
Passou também por nosso lar
E foi você quem desviou
Com golpes de pincel

Eu sei, é o amor que ninguém mais vê
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17 agosto 2010

O que eu te escrevi

Olha só, o que eu te escrevi É preciso força pra sonhar e perceber Que a estrada vai além do que se vê Sei, que a tua solidão me dói E que ...
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12 agosto 2010

Tudo em seu lugar

Sem título 1Às vezes eu queria achar uma saída pra nós dois, e você não acredita em mim e eu só quero te mostrar que não temos que provar mais nada pra ninguém. Pare de se preocupar e pense um pouco em você. Só mais um momento, essa noite tudo vai mudar. Acredite, acredite! Nós temos tempo para errar, tempo de sobra pra perder e ganhar. Apenas mais uma fase e com o tempo, o tempo volta ao normal e põe tudo em seu lugar. Às vezes me pergunto se espero muito das pessoas ou estou ficando cega e não sei em quem confiar. Só mais um momento, essa noite tudo vai mudar!
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12 agosto 2010

Tudo em seu lugar

Às vezes eu queria achar uma saída pra nós dois, e você não acredita em mim e eu só quero te mostrar que não temos que provar mais nada pra ...
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29 julho 2010

Você se lembra?

Você se lembra?Você se lembra de quando nos conhecemos? Eu me lembro, foi em algum dia no início de setembro. Você foi preguiçoso com isso, você me fez esperar. Eu era tão louca por você que nem liguei. Então, eu me atrasei para a aula e tranquei minha bicicleta na sua. Eu acho que eu estava com medo de você ir embora, de você talvez não voltar pra mim. Bom, eu estava louca por você antes e agora. A coisa mais louca do mundo é que dez anos se passaram, e você ainda é meu. Nos prendemos no tempo, vamos voltar? Você se lembra quando nos mudamos? O piano ocupou toda a sala. Você me fazia de boba e eu tocava pra você músicas de amor. Você diria que estávamos brincando de casinha. E agora você ainda diz que estamos. Nós construímos nossa fuga numa árvore que encontramos. Nos sentimos tão longe, mas ainda estávamos na cidade. Agora eu me lembro assistindo aquela velha árvore sendo queimada. Eu peguei uma foto que não gosto de olhar. Bom, todos esses momentos vêm e vão e sozinhos não parecem tão longos. Dez anos se passaram e nos não conseguimos voltar, ficamos presos no tempo. Mas você ainda é meu; Você se lembra?

Do You Remember @ Jack Johnson

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29 julho 2010

Você se lembra?

Você se lembra de quando nos conhecemos? Eu me lembro, foi em algum dia no início de setembro. Você foi preguiçoso com isso, você me fez esp...
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21 julho 2010

Remar, Re-amar, Amar.

heartEu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar.

para: Rafael, boyfriend ♥

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21 julho 2010

Remar, Re-amar, Amar.

Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso...
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08 maio 2010

O dia que Júpiter encontrou Saturno

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 Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodka, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou uma cadeira de junco junto a janela. A noite clara lá fora estendida sobre Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodka tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.

Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.

 Levemente, para não chamar atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito sobre o peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse.

 Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha.

 E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every dau, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.

 - Você gosta de estrelas?
 - Gosto. Você também?
 - Também. Você está olhando a lua?
 - Quase cheia. Em Virgem.
 - Amanhã faz conjunção com Júpiter.
 - Com Saturno também.
 - Isso é bom?
 - Eu não sei. Deve ser.
 - É sim. Bom encontrar você.
 - Também acho.

 (Silêncio)

 - Você gosta de Júpiter?
 - Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
 - Que é isso?
 - Um poema de um menino que vai morrer.
 - Como é que você sabe?
 - Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.

 (Silêncio)

 - Você tem um cigarro?
 - Estou tentando parar de fumar.
 - Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
 - Você tem uma coisa nas mãos agora.
 - Eu?
 - Eu.

 (Silêncio)

 - Como é que você sabe?
 - O quê?
 - Que o menino vai se matar.
 - Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
 - Eu não sei nada.
 - Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
 - Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
 - Ninguém compreende.
 - Às vezes sim. Eu te ensino.
 - Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
 - Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?

 (Silêncio)

 - Você tomou alguma coisa?
 - O quê?
 - Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
 - Não tomei nada. Não tomo mais nada.
 - Nem eu. Já tomei tudo.
 - Tudo?
 - Cogumelos têm parte com o diabo.
 - O ópio aperfeiçoa o real
 - Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.

 (Silêncio)

 - Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
 - Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
 - Alguma coisa se perdeu.
 - Onde fomos? Onde ficamos?
 - Alguma coisa se encontrou.
 - E aqueles guizos?
 - E aquelas fitas?
 - O sol já foi embora.
 - A estrada escureceu.
 - Mas navegamos.
 - Sim. Onde está o Norte?
 - Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.

 (Silêncio)

 - Você é de Virgem?
 - Sou. E você, de Capricórnio?
 - Sou. Eu sabia.
 - Eu sabia também.
 - Combinamos: terra.
 - Sim. Combinamos.

 (Silêncio)

 - Amanhã vou embora para Paris.
 - Amanhã vou embora para Natal.
 - Eu te mando um cartão de lá.
 - Eu te mando um cartão de lá.
 - No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
 - No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.

 (Silêncio)

 - Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
 - Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
 - Vamos nos ver?
 - No teu chá. No meu chá.

 (Silêncio)

 - Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
 - Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
 - Vou te escrever carta e não te mandar.
 - Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
 - Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
 - Vou ver Saturno e me lembrar de você.
 - Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
 - O tempo não existe.
 - O tempo existe, sim, e devora.
 - Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
 - Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
 - E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

 (Silêncio)

 - Mas não seria natural.
 - Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
 - Natural é encontrar. Natural é perder.
 - Linhas paralelas se encontram no infinito.
 - O infinito não acaba. O infinito é nunca.
 - Ou sempre.

 (Silêncio)

 - Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos.
 - Você quer dormir comigo?
 - Não.
 - Porque não é preciso?
 - Porque não é preciso.

 (Silêncio)

 - Me beija.
 - Te beijo.

 Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturadas, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz.

 Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.

Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.

 Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão de lado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-sena janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido.

 De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.

Rabiscado por  ­­Sah-p às 23:06 0 Comentário(s)
08 maio 2010

O dia que Júpiter encontrou Saturno

 Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Dera...
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02 abril 2010

Cansei

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 Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu gosto de você porque gostar não faz sentido.

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02 abril 2010

Cansei

 Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por s...
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